sábado, 10 de maio de 2008

Dia 5

Como qualquer turista, saquei da máquina para fazer a foto da praxe no aeroporto de Maputo. Era mais uma viagem. Desta vez, a caminho da Beira. Uma senhora bem parecida apressa-se a alertar para o risco de ficar sem máquina e até de ser detida devido à ausência de autorizacão para fotografar aquele espaco público. Na espera, uma ida ao pequeno bar surge uma simpática conversa com a mesma senhora, que me impede de beber a água contaminada: ¨Cá não há controlo de qualidade, essa empresa já foi fechada, mas voltou a abrir, mandam uma amostra de outra água e é assim que conseguem continuar o negócio. A melhor é a Vumba¨. E foi assim que começou uma simpática amizade. Chama-se Maria do Rosário, é directora das Financas e decidiu ser a nossa mãe durante a curta passagem pela Beira. Ofereceu alojamento, alimentacão, carinho e uma viagem com o motorista particular, sr. Mário, pela cidade. Um gesto inesquecível, só possível em Mocambique.

Dia 6

Cinco minutos depois da hora combinada, oito, o guarda da casa de Maria do Rosário chama por nós. À espera, o sr. Francisco. De poucas palavras, mas com um sorriso generoso, leva-nos até ao Parque da Gorongosa. Aqui, sente-se a verdadeira África. O cheiro da terra vermelha, que a minha amiga Inês tanto falou, posso agora sentir. O calor, a gente. Isto é África. Finalmente. ¨Isto não é uma visita ao Zoo, não sabemos quando e se vamos ver algum animal¨. Uma frase típica que os guias repetem sempre que iniciam um safari. Macadona não foi excepcão. Logo à entrada um bando de macacos faz as delícias da Daniela. Confesso, as minhas também. De cara simpática, os pequenos animais surpreendem-nos com acrobacias no topo das árvores. O grande lago, recheado de crocodilos e aves de diversas espécies, tornam o percurso até à casa dos leões inesquecível. Até aqui nada de felinos, só impalas, fugaceiros, butterwater, macacos e mais macacos. Já em plena conversa de despedida e com desilusão estampada no rosto, eis que surge o inesperado: o olhar assustado da Daniela leva-me a olhar para fora do carro, a cerca de dois metros do meu lado, duas leoas enormes paralisadas a olhar para nós. O Macadona avisou, eu sabia, mas não consegui evitar o pulo que dei para afastar-me delas... Dois metros malta, é pouco... Simba, o outro guia, ainda lancou um olhar de reprovacão. Enfim, é muita emocão. Nada de fotos, nada de filmagens. Fica na memória.

Dia 7
Depois de uma noite marcada pela presença de uma aranha gigante no quarto (sim, gigante, daquelas pretas com patas grandes) e pelo medo de mais algum animal aparecer no chalé que ficava situado atrás da árvore onde há poucos meses duas leoas atreveram-se a entrar devido à falta de vedacão, problema agora resolvido, dizem eles, o despertador toca para mais um dia na selva. Mais um safari. Desta vez, com a única guia mulher no parque. Nilza, vinte e poucos anos, filha de famílias ricas que abdicou da fortuna para dedicar-se aos animais. Esta é uma das muitas histórias deste povo. Já no regresso ao dormitório, decido fazer uma pequena entrevista ao tenente-coronel Bernardo, representante do Governo no Parque da Gorongosa, e eis que entre uma e outra pergunta avisto um leão. Ou seria um tronco? ¨É leão! É leão!¨, confirma Daniela. Pois não era um leão... Seis leoas!

Gorongosa, 11h, 40 graus à sombra. No centro clínico, o pequeno Mário e a mãe, Albertina, que não sabe ao certo a idade: ¨Uns vinte, não sei...¨ Os dois recebem ordem do enfermeiro para avançar com o internamento. Nielson segrega-me enquanto mostra as instalacões: ¨É sida, de certeza, a mãe tem, não fez o despiste e contagiou o filho na gravidez¨. Sem precisar de recorrer a análise de sangue, ele sabe bem quais os sintomas. Só de olhar. Arrepia. Uma realidade combatida pelo passeio de piroga que tive de fazer num rio onde os crocodilos abundam e há dez dias uma senhora e uma crianca foram mortos por um enquanto tomavam banho. Pois que não tomei banho, é verdade, mas atravessei uma zona minada a pé... Só eu sei o que senti, um medo tão grande, combatido com as gargalhadas nervosas que o grupo dava para animar a jovem da Suiça que já não controlava as lágrimas que saltavam dos olhos azuis.
À espera, na palhota, o chefe da aldeia, que nem sabe ao certo o número de filhos que tem: ¨Uns vinte, vinte e dois ou quatro¨. Mas lembra-se bem do som do tiro que a FRELIMO e a RENAMO atiraram, em 76, e o obrigou a adandonar o sítio onde cresceu, o Parque da Gorongosa. Agora está de volta e vê com satisfacão os turistas que por lá passam para o conhecer e trocar algumas palavras num português trapalhão, salvo pelos gestos e pelos guias que conhecem o dialecto local, sena e chi-gorongosa.
Em Vinho, a aldeia piloto, que a fundacão do americano Greg Carr criou, no âmbito da recuperacão do Gorongosa Park, está a escola. Velhos e novos aprendem juntos, penas com uma parede a dividir. A turma do 3. ano recebe-nos com um caloroso hino, que Luís, o pequeno director de turma, dá ordem para cantar. De repente, as atencões voltam-se para os brancos que surgem do nada. A máquina fotográfica digital faz as delícias da pequenada, que se coloca em pose para ser fotografado só pelo prazer, misturado com a vergonha que sentem, ao ver-se no pequeno ecrã.
Aqui dá vontade de ficar e ajudá-los a crescer. E crescer com eles. Juntos. Aqui, ainda há pais que vão de madrugada para a selva colocar armadilhas para ter o que comer no dia seguinte. Não trabalham, não têm dinheiro e tornam-se caçadores furtivos. Matam animais selvagens, como leões, impalas, veados. Matam para comer.

Dia 8

Regresso à Beira na boleia de Vasco, o porta-voz do Parque da Gorongosa, um executivo que depois dos atentados do 11 de Setembro mudou radicalmente de vida. Encaixotou as gravatas, os fatos, os livros e os cd's e partiu para África como voluntário. Está cá há cinco anos e os caixotes continuam fechados e encostados numa parede da casa onde vive com a mulher e a pequena Amélia de dois anos.

O sr. Mário, o motorista da Maria do Rosário, tem ordens para não nos largar de vista. ¨É preciso atencão, quando menos se espera, eles roubam¨, alertou Rosário, consciente do exagero das palavras. Numa volta pela cidade, na companhia de Nicole, a filha de Rosário, o Sr. Mário conduz calmamente e passa pelos locais mais emblemáticos da cidade enquanto garante que ¨não há muitos roubos¨.


Dias 9, 10 e 11


Três e meia da manhã de pé. Uma viagem de seis horas até Vilanculos, onde tinha voo para Bazaruto. Primeiro problema: não existem taxis no local onde o autocarro Pantera Azul me deixa. Resta-me o chapa. Um simpático mocambicano decide oferecer boleia na sua 4x4. Segundo problema: lugar só para uma. Vamos as duas à boleia na parte de trás da carrinha de caixa aberta. Uma chegada comum ao aeroporto, não fosse eu para um hotel de luxo na ilha... À espera, os dois pilotos da avioneta que faz o transfer para o paraíso. A vista da pequena janela do avião deixa-me sem folêgo. Uma mistura de turqueza com verde tornam as águas transparentes que deixam ver os corais numa paisagem inesquecível. É o paraíso. Biquini aqui estou eu. Em três dias de praia, posso já adiantar que a minha cor, de branca não tem nada...


2 comentários:

Neuza disse...

olá olá! Muito me tenho divertido - e, confesso, roído de inveja- com o teu diário de África.
Suponho que quando regressares vamos ter de fazer um jantar para nos contares tudo, tudo, tudo! Mas desta feita sem direito a dores de barriga, pode ser?!!!

bjs gds e continua a divertir-te
Neuza

Anette disse...

Olha eu não sei porque é que uma tal de Inês vem citada e eu não... mas tudo bem. Espero que te estejas a divertir e aproveita bem que isto por aqui anda uma pasmaceira pegada. Macacos? Nada! Leões? Nada. Só os pachorrentos dos caracóis, que estão a despedir-se da vida com estas chuvitas de Maio antes de entrarem nas nossas bocas de Verão.